textos o algodão não engana

 

 

Poema Em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Álvaro de Campos)

 

«Xunga Como o Caralho»

De cada vez que tentava começar uma frase, subitamente as ideias desvaneciam-se. «Porra, tenho a certeza que esta era porreira». Coçou a cabeça e deu um golo no copo de cerveja onde flutuavam dois cubos
de gelo. O Puto esquecera-se de meter as garrafas no frigorífico e agora improvisava desta maneira. Desde que a bebesse rápido, não havia espiga. Bebê-la morna é que não podia ser, não senhora. Era da mais barata do mercado por isso, às tantas toda a situação não deixava de fazer
um estranho sentido. À força do hábito, o puto acabara por desenvolver uma predilecção pelo mais xunga. Pelo menos na bebida, nas drogas e nas mulheres. Mais valia a pena fazer uma pausa. Escrever naquele momento estava a custar demasiado. Pegou no telefone e ligou para a Teresa.
- Sabes que horas é que são?!
- São horas de passares em minha casa…
- São três da manhã, meu cabrão. Já estava a dormir. O que é que queres?
- Não consigo escrever.
- E o quê que eu tenho a ver com essa merda?
- Às tantas podias inspirar-me...
- Ah é? Então e a outra puta que anda a parasitar pela tua casa
não serve para isso?
- Quem, a Ana?
- Sei lá o nome dessa cabra!
- A Ana é apenas uma miúda que gosta do que eu escrevo, mais nada.
Já não aparece cá há uns tempos.
- Não sabia que andavas a escrever com a pila.
- Deixa-te disso, anda lá, meti agora mesmo umas garrafas no congelador.
- O quê, da tua bebida rasca?  Além disso, tenho estado com o Adriano.
- Porra, com o Adriano? Esse pedante de merda?!!
- Ao menos trata-me bem.
- E fode-te bem?
- Mas quem és tu para falar disso? Andas a beber demais, puto,
qualquer dia desapareces, evaporas.
- Whatever, cabra.
- Cabra?
- Espera aí... o telefone deve estar a fazer eco.
- Vai mas é beber até te vomitares todo! Devias era sufocar no meio
do vómito, meu cabrão!
- Ao menos ainda consigo fazer alguma coisa de jeito.
- O quê, falar da merda que fazes?
- Yah… Disso e de cabras como tu. A merda inspira-me. Podes crer.
Só mais uma coisa: a Ana faz broches bem melhores que os teus.
- Imagino, deve ter boca de bebé, mesmo à tua medida, né?
- Yah… E o rabo também, ao contrário do teu, é bem apertado, como eu gosto. 
O puto desligou o telefone, abriu uma garrafa, já fresca, e começou
a escrever. Sentia-se bem e capaz de escrever durante horas e horas a fio.

 

Sala Branca / Tempo de Parar

As cadeiras da sala branca movem-se
Sorrateiramente 
Fugindo às sombras dos fantasmas
que por aqui se movimentam
Eu fujo com elas
Incessantemente
Sem nunca sair do mesmo lugar
Algo me diz que é tempo de parar. 
Acho que.
É.
O coração.
 
Ouço o som distinto de helicópteros
a sobrevoar o meu prédio
eles vêem pela escada também
passos atropelam-se na pressa de aqui chegar,
carregam as shotguns:
há muito tempo para matar
Quero fugir mas não consigo
ligo
o isqueiro
à garrafa
e faz-se luz:
ainda que por breves segundos
faz-se luz...
Eu inalo
exalo
apanho
o estalo
e dá-me um certo galo
quando constato
que a viagem está a chegar ao fim...
 
Algo me diz que é tempo de parar. 
Acho que.
É.
O coração.
 
Finalmente ganharam coragem
e batem-me à porta
Eu não ofereço resistência:
estou cansado
Façam o favor de entrar:
estou cansado
Algo me diz que é tempo de parar.

 

O Princípio de Uma Boa Queca

“Não te preocupes… sou muito boa naquilo que faço”, disse Cátia numa voz dengosa mas segura, desapertando o fecho das calças devagar, firmemente, enquanto o olhar dele não descolava das últimas quatro linhas de coca intactas no cd de DAFT PUNK em cima da mesa da sala. Quando não tinha pachorra para aquecer um prato, Serginho escolhia os cds para dar riscos baseando-se numa série de critérios, a saber: cor escura, música boa  e um título apropriado para a ocasião. “Discovery” tinha-lhe parecido ser a escolha ideal naquela madrugada.  As ideias atropelavam-se no raciocínio acelerado: “podia dar só mais um cheiro, merda, apetece-me, mesmo, mesmo. Mas pode cortar-me a tusa, quando é demais a coca também pode dar para isso, também, e até que tou fixe, tou fixe, tou mesmo fixe, um bom broche é quase sempre o princípio de uma boa queca, sabe Deus há quanto tempo não dou uma de jeito, pelo menos de que me lembre, ela diz que é boa naquilo que
faz e quem sou eu para duvidar? Relaxa e aproveita”, pensou. Deu um golo que matou o que restava da Heineken que tinha numa mão, enquanto
afagava os cabelos da Cátia com a outra. Definitivamente, ela era boa
naquilo que fazia. Brincou um pouco com a lingua na cabeça da picha e depois deixou-a deslizar suavemente por inteiro para dentro dela, de uma só vez. A expressão “foder-te a boca toda” materializava-se da maneira menos provável, mas, imediatamente a seguir, sacou-a de forma quase brusca. Sérgio soltou um gemido misto de dor e surpresa: ela pôs o indicador nos lábios e sussurrou “shhhhhhhh”… Voltou à carga,  começando a lamber os tomates. Pretendia levar o seu tempo.  Ao lado do cd, um dos telemóveis 
que estavam em cima mesa vibrou, o que lhe fez voltar a pensar na branca.
Se desse um risco, o mais certo era dar o resto numa questão de minutos, mas ainda deviam ser umas quatro da manhã, o que significava que pelo menos dois dos seus dealers deviam estar na ronda, e bastava um sms
para para um deles passar lá por casa. “Não, mano, não, mano - vai ser um desperdício de tempo e dinheiro, é sempre a mema merda, daqui já não passas, já vais na segunda grama, não é que ainda vás curtir muito mais,
e ainda te arriscas a ficar pelas entradas”. Cátia chupava agora a sua picha dura ritmadamente, nem muito devagar nem demasiado rápido, salivando apenas o suficientemente necessário para tornar a sua boca um receptáculo húmido, quente, confortável. Este poderia ser de facto o princípio de uma excelente foda. O telemóvel voltou a vibrar. Sérgio desconcentrou-se e veio-se dentro da boca dela sem o prever. Antes de dizer qualquer coisa, levantou-se do sofá, deu dois riscos de seguida e pegou no telemóvel: “Onde andas?”, escreveu para dois números. Posou o telefone e estendeu a palhinha a Cátia. “Dás uma linha?” Cátia esboçou uma tentativa de sorriso, acendeu um
cigarro e acenou afirmativamente: “Sim, apetecia-me uma coisa boa, agora.”
                                                                      

Lábios de Vinho 

No bairro alto, eu tou bem alto, no alto do meu raio
Ela cruza a esquina do clube e olha de soslaio
De repente toda a rua fica iluminada,
o tempo pára: tá toda gente congelada
Cena fora, assim do nada tou no meio do “Big Fish”
Tim Burton não me convidou mas quero é que se lixe
só nós dois é que sabemos, só nós dois é que mexemos
só nós dois é que podemos, fazemos e acontecemos
Não páro para pensar vou disfrutar este momento
avanço decidido, em direcção ao monumento
que descubro à medida que me aproximo
Se tu existes Deus existe, eu acredito e confirmo
 
Deixa-me provar o sabor dos teus lábios, será que são de vinho, será que
são sábios, experimentados?
Será que sim, será que não, será que são, será questão?
 
Enquanto isto a minha dama ficou pa trás de copo na mão 
a caminho da boca que se ri e faz rir o meu coração
Pois então, porquê tamanha traição?
Não é só a beldade, vai para além de qualquer explicação racional
É natural, ou antes sobrenatural
não sei o que se passa mas não quero chegar ao final deste filme antes da cena de amor, pode ser? Por favor, por favor, por favor...
Deixa-me provar o sabor dos teus lábios, será que são de vinho, será que
são sábios?
Experimentados?
Será que sim, será que não, será que são, será questão?
Carregaram no play: porra, merda, foda-se!
Tou a um palmo de distância dela, porra, merda, foda-se!
Como é  que eu me safo desta? porra merda, foda-se!
Porra merda foda-se, porra merda foda-se....
  “Tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano tem calma mano”
Não tás a ver bem a cena mano, eu juro que o tempo congelou
E de um momento para o outro cagou e arrancou
Eu não tou a tripar ou pelo menos acho que não
Hoje nem me empreitei, pelo menos acho acho que não
“Não te empreitaste o caralho mano já nem sabes que horas são,
onde estás e o que fizeste desde então
Tás a falar no bairro alto e saimos de lá há uma hora
Tamos no meio da 24, tás a ficar à nora
Pára de morder o lábio essa merda faz-me confusão
Tás todo mamado precisas é dum colchão
Vou-te deixar em casa tás a dar muita bandeira
A tua dama já bazou, numa alta choradeira
Cá pra mim deram-te keta misturada com o md
Tudo bem mexido e o resultado é o que se vê”

 

Upa, Upa!

Miguel acordou com um cabeção de todo o tamanho. Como alguém muito especial lhe costumava dizer, uma cabeça panda bébé. Nunca tinha percebido muito bem o que ela queria dizer com essa história do panda
bébé, mas achava-lhe piada, por causa dos pandas, que adorava e por
causa dela, que tinha sido a única coisa que tinha conseguido amar na vida. Havia qualquer coisa na forma como ela o dizia. Havia qualquer coisa
em tudo o que a Mara dizia – até nas putas das asneiras. De repente voltou
à Terra. “Mais uma merda de noite”, concluiu, ao mesmo tempo em que começava a enrolar um charro. Não devia era ter acordado, aquilo não estava nada bom. Na noite anterior tinha-se esticado com Xanax para cortar a moca da coca e as pastilhas eram uma merda, mas a batida ainda estava a soar bem forte na cabeça…

 

Enxerto*

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

*de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos
 
 

Tempo de Reagir

Em boa verdade diz a analista:
“A acção mata o pensamento.”
Quando o trabalho não chega
para fazer dormir quando voltamos a casa
Quando acaba a televisão
o dvd,
quando acabam os jogos e a bola
 
É Tempo.
É Tempo de Reagir.
 
Quando nem o sexo consola,
porque se tornou apenas outra forma de alienação
E uma pessoa se dá ao luxo de sentir, raciocinar:
é nessa altura que dá vontade de voltar:
Sentir o quentinho de uma chauza
e mandar todos foder:
Não valem um caralho
Os poucos que sim, os bons,
esses teimam em desaparecer.
 
É Tempo.
É Tempo de Reagir.
 
Se a acção mata o pensamento,
A inevitável droga ilude-o docemente
Se não o podemos matar e certamente não o devemos enganar,
juntemo-nos a ele,
por muito que nos magoe.
É Tempo.
É Tempo de Reagir.

 

Reage, Acorda!

Se é tempo de reagir… Reage!
Reage, acorda!!!
Reage, acorda!!!
Reage, acorda!!!
Reage, acorda!!! 

 
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